Suzana Herculano-Houzel

Coluna_2023_10_24

Crianças parecem ganhar de dez a zero dos adultos em termos de velocidade para aprender coisas novas. Diga-lhes uma palavra nova uma única vez e ela entra permanentemente para o vocabulário infantil. Ensine às crianças uma língua estrangeira, e elas a falarão sem sotaque. Coloque-as ao piano e elas aprenderão, com mais facilidade do que qualquer adulto, a dedilhar uma melodia. Ou não?

Para alguns estudiosos do aprendizado motor, é um engano considerar a capacidade infantil de aprendizado universalmente superior à dos adultos. Ao invés de ter um cérebro indiscriminadamente mais “lento” para o aprendizado, a desvantagem dos adultos pode estar em um efeito bem específico: interferência entre tarefas.

Se tentarem aprender uma, e apenas uma, tarefa motora, como um dedilhado ao piano, adultos e crianças mostrarão a mesma velocidade de melhora – e os adultos em geral terão melhor desempenho. Se, no entanto, tentarem aprender cinco dedilhados diferentes ao mesmo tempo, ou apenas dois, as crianças aprenderão todos igualmente bem – mas os adultos terão dificuldade para lembrar até do primeiro dedilhado. Isso é interferência entre tarefas: a tentativa de um segundo aprendizado simultâneo perturba o primeiro, e o adulto acaba não aprendendo nenhum dos dedilhados, não porque seja intrinsicamente mais lento, e sim porque seu aprendizado é sujeito a interferências.

Faz sentido que o aprendizado das crianças seja imune a interferências entre tarefas. O mundo traz muito mais novidades para o cérebro de uma criança do que o de um adulto, e essas são registradas por um cérebro infantil abundante em matéria prima como um caderno de muitas páginas, capaz portanto de fazer anotações em várias frentes ao mesmo tempo. Finda a adolescência, a matéria-prima ainda está lá – mas o caderno de entrada, agora com uma página, somente anota uma novidade de cada vez.

Isso não quer dizer que o adulto não consiga mais aprender, nem que tenha mais dificuldade do que as crianças. Pode precisar ir aos poucos, mas o cérebro adulto também chega lá. Não aprendemos mais cinco músicas novas ao mesmo tempo, mas dêem-nos algumas horas para estudar uma só e o resultado pode ser um concerto que criança alguma tocará. Temos algo valioso em nosso cérebro que as crianças estão apenas adquirindo: a bagagem de vários anos de vida. E continuamos acumulando mais, talvez até tão bem quanto as crianças – desde que seja uma coisa de cada vez.

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em dezembro de 2006.

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