Suzana Herculano-Houzel

Coluna_117 Jetlag

Ah, os problemas da vida moderna. Enquanto éramos apenas bípedes e não tínhamos luz artificial, dormir e acordar eram questões simples, ditadas pelo horário do sol (e perturbadas no máximo por uma fogueira noturna, ou mais tarde um lampião); impossível mudar de fuso horário no espaço de um dia quando somente se anda a pé. Depois, vieram as viagens transatlânticas de navio, quando o horário solar ia mudando - mas lentamente, ao longo de vários dias.

E então... inventamos o avião, e com ele o deslocamento rápido entre meridianos no planeta. Por exemplo, ontem à noite estava em casa, no Rio de Janeiro, e hoje já estou na Califórnia, a mais de 9.000 km de distância e cinco meridianos a oeste, mais nosso horário de verão. Resultado: são onze da manhã aqui, mas meu cérebro acha que são cinco da tarde e meu almoço está mais do que atrasado. Minto: "almocei" às 8 da manhã no Texas, quando para mim já era meio-dia, mas agora é hora de almoçar de novo. Ou será "jantar"?

O fato de sofrermos de jetlag é prova de que nossa vida, por mais que acompanhe o horário solar, não é ditada por ele - ou dormiríamos quando o sol se põe, qualquer que fosse o horário, e acordaríamos tranquilamente com o amanhecer local. O descompasso com a mudança de fuso é sinal de que temos um relógio interno cerebral que regula nossos horários: um verdadeiro marcapasso, situado logo acima do ponto onde os nervos ópticos adentram o cérebro. Um lugar ideal, aliás, para uma estrutura que é informada pelos olhos sobre a luminosidade ambiente, que diz ao cérebro se é dia ou noite.

Mesmo se ficássemos no escuro absoluto por dias, manteríamos horários de dormir e acordar, mas com um ritmo de cerca de 25 ou 26 horas, não 24. É essa característica do relógio interno que nos permite a adaptação a um fuso novo: diariamente, o relógio interno, mais longo do que o dia solar, é ajustado ao horário local dependendo da hora em que a luminosidade ambiente aumenta - por exemplo quando saímos de casa e nos expomos ao sol.

Sair ao sol no novo fuso é, portanto, a melhor recomendação para se ajustar logo ao horário local. Por isso vou aguentar firme até um horário razoável para adormecer aqui, talvez umas nove, e torcer para o cansaço me manter na cama ao menos até as 5 da manhã. Mas voar para oeste é fácil; voltar para casa é que vai ser complicado...

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em novembro de 2011

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