Suzana Herculano-Houzel

Coluna_2023_11_07

Ninguém gosta da idéia de precisar de um remédio para o resto da vida, muito menos “para a cabeça”. Recebi uma vez um e-mail de um rapaz que sofria de transtorno obsessivo-compulsivo e aceitara de sua psiquiatra uma medicação que se mostrou eficaz. A razão do e-mail, contudo, era a revolta do rapaz ao descobrir que precisaria tomar a medicação diariamente, pelo resto da sua vida, para permanecer bem. Indignado, resolveu parar de tomar o remédio, porque não queria ficar “preso a ele pelo resto da vida”. Ele me perguntava: é isso mesmo? Se for, isso não é ruim?

Minha resposta ao rapaz foi Sim, é isso mesmo, algumas condições não têm cura, apenas tratamento para o resto da vida. E não, isso não é ruim. É uma questão de ponto de vista –e eu lhe ofereci o meu.

Na verdade, acho uma bênção que sequer exista um tratamento para o resto da vida. Sei disso por experiência própria. Tenho um problema cardíaco crônico que requer medicação diária para o resto da vida: um beta-bloqueador, que me poupa de ataques repentinos de taquicardia e visitas ao pronto-socorro com o coração batendo na garganta 180 vezes por minuto. Dada minha condição, acho maravilhoso que uma pílula diária me permita viver tranqüila e até esquecer que tenho uma arritmia. Da mesma forma, dou graças aos cientistas que desenvolveram o antipsicótico de última geração que uma amiga querida tomará pelo resto da vida, ficando assim livre dos surtos de delírio paranóide que quase lhe arruinaram a vida poucos anos atrás. Ela pode ter uma vida normal, rica, plena e ser uma pessoa saudável como qualquer outra – enquanto tomar diariamente seu remédio. 

Claro que é indesejável depender de algo externo ao corpo para ter bem-estar. Mas isso não é novidade, nem se aplica somente a remédios. Quem prova dos benefícios de sabão, escova e pasta de dente não quer mais viver sem eles. É uma dependência boa, que deixa a vida melhor e cujos benefícios compensam de longe o transtorno eventual de ficar sem sabonete em casa (a farmácia da esquina resolve o problema com um telefonema), bem como o risco de efeitos colaterais como irritações na pele por uso excessivo ou inadequado.

O rapaz me escreveu de volta. Tinha mudado de idéia, e ia voltar a tomar o remédio. Fiquei feliz por ele. Se fosse 50 anos atrás, eu talvez já tivesse morrido de um ataque cardíaco aos 30, e ele estaria fadado a uma vida atormentada. Mas hoje existe uma escolha – e ela está em nosso poder.

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em janeiro de 2007.

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