Suzana Herculano-Houzel

Por que o botão shuffle funciona?

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Meus filhos me viciaram nos joguinhos do aplicativo do New York Times. O Wordle, que é um “Senha” de letras que formam palavras (as crianças de hoje ainda jogam Senha? Aquele jogo era uma aula sensacional de raciocínio lógico!), esse eu já conhecia, mas não havia me aventurado ainda nos outros. Spelling Bee e Connections viraram nossa (bom, minha) Rotina Matutina Para Sair da Cama, uma espécie de Aquecimento Cerebral. E quando nossos resultados aparecem compartilhados no nosso grupo de mensagens no telefone, os outros sabem que a gente já está de pé e mentalmente prontos para enfrentar o dia.

Então: Spelling Bee lembra os criptogramas que vinham no jornal, com a diferença que são apenas seis letras, mais uma letra central. O jogo consiste em formar palavras usando apenas as letras disponíveis. Palavras têm que ter ao menos quatro letras; não podem ser nomes próprios nem linguagem chula; podem repetir letras à vontade; e têm que obrigatoriamente usar a letra central ao menos uma vez. Conforme você encontra palavras, você soma pontos, sobe de ranking e se aproxima do ranking máximo de cada jogo: Gênio.

Pois bem. O jogo só tem três botões: um para apagar as letras, um para submeter a palavra formada, e outro com duas setinhas em círculo, uma apontando para a outra, que eu não sabia o que era, então, como estava empacada, certa de que havia mais palavras à minha espera mas frustrada de não as encontrar, toquei nas setinhas para descobrir o que acontecia. Era o botão de shuffle, que embaralha as letras e muda sua disposição ao redor da letra central.

E a mágica aconteceu: com as letras em novos lugares, eu desempaquei instantaneamente com não uma, mas várias novas palavras. Foi só mudar as letras de lugar. Como e por quê?

Neurocientista de Plantão que se preza consulta imediatamente seus alfarrábios mentais e fica maravilhada com a revelação, e não deu outra. Faz todo sentido.

O botão de Shuffle é uma chance para o cérebro reconhecer palavras cujas letras já estavam na sua frente simplesmente porque o embaralhamento FORÇA o cérebro a olhar para as novas letras agora vizinhas como parte de sequências maiores. Frases são associações de palavras, e palavras são associações de letras. Produzir palavras no Spelling Bee portanto depende de encontrar o fio condutor que junta por associação, no cérebro, os pedaços que são as letras.

Mover os olhos é como a gente produz sequências por associação temporal, testando uma letra junto com esta, depois a mesma letra junto com aquela, pra ver se o cérebro pesca o fio condutor e engrena o resto. Mas apertar o botão do Shuffle é se dar a chance de produzir sequências por associação espacial, conforme o jogo esfrega na cara da gente a sequência que a gente ainda não tinha notado.

O jogo dá como dicas o número de palavras começando com cada letra e quantas letras elas têm, mais o número de palavras que começam com duas letras identificadas. Quem precisar de mais dicas pode pedir ajuda aos Universitários, digo, à Comunidade, dentro do próprio jogo. A primeira dica é sempre uma lista de definições do significado das palavras do jogo do dia. Essas dicas funcionam da mesma maneira que o Shuffle: de um jeito ou de outro, todas elas dão novas oportunidades ao cérebro de encontrar o fio da meada.

Encontrar as palavras é uma delícia, e vencer a frustração da palavra teimosa que escapa ao cérebro às vezes faz a consulta à Comunidade ser necessária para conseguir terminar o jogo para sair da cama e começar o dia. Mas mais prazeroso mesmo é deixar as crianças irritadas com os vários dias seguidos de Gênio, e cada vez mais sem ajuda das dicas.

O cérebro também explica: o número de palavras em qualquer língua é limitado, então conforme você joga, mais e mais palavras começam a se repetir. É só prestar atenção, usar as palavras e ir aumentando seu vocabulário. Bem como a gente faz na vida real…

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