Suzana Herculano-Houzel

Coluna_2023_10_19

Toda interação social – amizade, troca de informações, compra e venda e mesmo um simples pedido a um estranho de ajuda com um endereço – envolve uma avaliação de confiança: o quanto você pode acreditar na pessoa à sua frente? É claro que decisões sobre a confiabilidade alheia envolvem questões sociais complexas. Mas a biologia não fica de lado. Afinal, interações sociais são, antes de mais nada, trocas entre seres que possuem uma biologia bastante parecida, sujeita à influência das mesmas moléculas. Como a ocitocina, por exemplo, produzida pelo cérebro, mas que pode chegar até ele pelo nariz. 

Antes apenas um hormônio associado à lactação e ao parto, a ocitocina hoje é reconhecidamente uma substância cujas funções pró-sociais já incluem a formação de laços afetivos entre mães e filhos e entre namorados, a preferência sexual pelo parceiro, e até a confiança em investidores. Em 2005, um estudo da Universidade de Zurique, na Suíça, mostrou que três borrifadas de ocitocina em cada narina de jovens universitários bastavam para deixá-los mais propensos a confiar todo seu dinheiro a “banqueiros” que teriam total poder de decisão sobre o valor a devolver ao investidor. Infelizmente, borrifar ocitocina no nariz dos banqueiros não os fazia pagar mais dividendos aos investidores. Faz sentido; decidir quanto dos lucros dividir com o investidor não é uma questão de confiança, já que o banqueiro não corre risco algum na transação. Dar ocitocina ao cérebro, por via nasal, só faz diferença quando a interação é social, entre pessoas reais, e envolve confiança.

Agora, mais esta: segundo outro estudo da Universidade de Zurique, um pouquinho de ocitocina borrifada no nariz de casais prestes a começar uma discussão diminui a produção de cortisol, hormônio produzido em resposta ao estresse do bate-boca, e torna os casais mais propensos a "abrir seu coração" durante o arranca-rabo – talvez por deixá-los mais confiantes no parceiro, apesar dos pesares. Não estava no estudo, mas uns abraços antes da discussão devem surtir um efeito parecido: abraços são a alternativa natural - e bem mais agradável - ao vidrinho de ocitocina vendido na farmácia da esquina.

Antes que você fique pensando em abraçar sua próxima vítima antes de discutir com ela, há no entanto um pequeno porém. De acordo com o estudo, pingar ocitocina no nariz não faz ninguém mudar de opinião sobre o conteúdo da discussão. Infelizmente... ou não!

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em novembro de 2006.

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