Suzana Herculano-Houzel

Coluna_034

Tem site pra tudo na internet, e outro dia descobri um que vendia músicas que supostamente induziam “estados cerebrais” semelhantes aos produzidos por drogas. Por alguns módicos dólares, o site oferecia a experiência de uma viagem lisérgica, cocaínica ou canabinóide produzida por seu cérebro em resposta a músicas criadas especificamente que você poderia baixar para seu computador ou ouvir lá mesmo. Um aviso discreto esclarecia, no entanto, que o efeito, inclusive o da “amostra grátis” disponível para download, só era garantido se você comprasse os fones de ouvido especiais vendidos exclusivamente por eles...

É claro que se tratava de mais um esquema para pegar crédulos incautos com cartões de crédito ávidos por experimentar “efeitos seguros” de drogas. Sim, boas músicas dão barato ao cérebro (não era o caso das músicas disponíveis no site, não para o meu cérebro – mas, certo, eu não tinha os fones especiais). Por definição, a boa música é aquela que dá trabalho ao cérebro na dose certa e leva à ativação do sistema de recompensa: quanto mais intensa essa ativação, mais intensa a sensação de prazer.

Cada cérebro tem suas preferências pessoais para o que será considerado boa música, mas alguns critérios são comuns aos mais variados cérebros. Músicas que chamam nossa atenção possuem uma estrutura melódica e temporal complexa o suficiente para que os processos automáticos de análise de padrões que o cérebro faz desde a primeira nota tenham um certo trabalho para criar expectativas sobre como a melodia deve prosseguir. Esse processo (não-consciente) de tentar adivinhar as próximas notas e eventualmente acertar é um grande estímulo ao sistema de recompensa, que mantém o cérebro interessado em continuar a brincadeira e faz com que ele goste daquela música.

Por outro lado, melodias simples demais, como o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó de uma escala, têm uma estrutura tão trivial que rapidamente deixam de servir de estímulo ao sistema de recompensa. No outro extremo, seqüências que seguem padrões complexos demais para serem descobertos pelo cérebro, ou não seguem padrão nenhum, são frustrantes para o sistema de recompensa – e logo são abandonadas, por não oferecerem prazer algum.

Quanto mais músicas ouve, mais o cérebro aprende a encontrar e antecipar padrões em melodias e ritmos cada vez mais complexos e, assim, mas músicas complexas quer ouvir. O barato da música vem do trabalho que ela dá ao cérebro.

Publicado originalmente na Folha de São Paulo em agosto de 2007. 

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