Suzana Herculano-Houzel

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Esse negócio de ser colunista é ótimo por várias razões, mas de uma eu gosto em particular: ter que escrever artigos quinzenalmente é a desculpa perfeita para embarcar em investigações paralelas aos assuntos habituais da neurociência do laboratório. E assim eu me vi fazendo aulas de... dança de salão. Neurocientificamente, é claro.

 

Aprender a dançar é um prato feito para uma neurocientista de plantão. Tudo começa com o planejamento. É preciso encontrar o local, escolher uma turma adequada ou professor particular e coordenar dia e hora com todos os afazeres habituais, o que dá trabalho ao córtex pré-frontal. Marcado o dia, vem o prazer da expectativa, a antecipação da recompensa de rodopiar ao som da música.

 

E então as aulas. Os professores sabem há tempos que o cérebro aprende novos programas motores aos poucos, então ensinam os passos em etapas. O córtex motor elabora a nova seqüência de movimentos, até então nunca usada, ordena sua execução e começa a ajustá-la, de acordo com erros e acertos, com a ajuda dos núcleos da base. Depois que cada seqüência é polida, é hora de coordená-las em um programa motor completo que cuida da execução fluida de combinações de Sombreros, Coca-Colas e Passeias – no ritmo na música, de preferência, se seu cerebelo ajudar. E haja cerebelo para manter o prumo com tantos rodopios.

 

Até aí vai. Mas cantarolar a música e dançar ao mesmo tempo leva um tempo. Enquanto os programas motores recém-adquiridos não se tornam automáticos e liberam o córtex para outros assuntos, preciso de todos os neurônios corticais disponíveis pra supervisionar meus passos. O bom é que, como preciso concentrar esforços sobre minhas pernas, os problemas do mundo lá fora ficam lá fora. Com mais treino e uma música rápida demais para meu córtex dar conta, descubro um dia que meus núcleos da base já sabem encadear sozinhos todos os programas motores necessários. Meu cérebro aprendeu a dançar salsa!

 

Dança de salão é tudo de bom. As academias são lugares alegres, cheios de jovens e idosos, todos dispostos a aprender coisas novas – e ainda oferecem um exercício completo para o cérebro. Dançando, é possível suar e manter saudável a resposta do cérebro ao estresse; treinar a memória, aprendendo passos e nomes novos; exercitar suas habilidades sociais, interagindo de modo cortês com pessoas desconhecidas; e ainda ativar o sistema de recompensa, o que garante boas horas de prazer e diversão. E depois... é hora do baile! E então... é hora da dança!


Originalmente publicado na Folha de São Paulo em fevereiro de 2007.

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