Suzana Herculano-Houzel

Não, todo mundo NÃO é um pouquinho autista

Coluna_432 Nem todo mundo é autista

Você é “normal”? Provavelmente sim, e por uma razão muito simples: matematicamente, uns 90% da população são “normais” para cada característica que pode ser quantificada.

Ser “normal” não implica nada de bom nem ruim; o termo denota apenas que a distribuição daquela característica na população tem forma de sino, com 90% concentrados perto da média, então “normal” é quem está perto do centro do sino da distribuição. Só isso. Numa distribuição normal, “normal” é, por definição, a maioria.

Mas são várias as características que podem ser medidas na população, e todo mundo está em algum ponto de uma distribuição normal de cada característica da população. Algumas pessoas vão se encontrar nos extremos de algumas distribuições: sensíveis de menos – cegos ou surdos, por exemplo – ou sensíveis demais a imagens e sons, extremamente antenados ou desligados em termos de sinais sociais e sinais auto-referentes, extremamente ávidos ou importunados por interações sociais, prontos para inferir intenções alheias a cada ação ou incapazes de fazer isso. A maioria da população não se encontra em nenhum extremo, ou apenas em um ou outro, nesta ou naquela direção. Um extremo eventual não torna ninguém “um pouquinho” autista.

A razão também é simples: autistas, por definição, são pessoas que habitam uma constelação particular de extremos de várias dessas distribuições. Grosso modo, são pessoas que convivem com hipersensibilidade sensorial, pouca sensibilidade ao próprio estado emocional, aversão a interações sociais devido ao estresse que elas causam, pouca inferência automática da intenção alheia, e ansiedade crônica. O fato dessa constelação particular de características surgir com uma certa frequência na população é um forte indício de que há fatores genéticos envolvidos, e, de fato, o autismo frequentemente passa de pais para filhos.

Mesmo assim, cada autista tem a sua combinação particular de extremos, em intensidades diferentes. Uns são especialmente sensíveis a imagens; outros, a sons, ou a cheiros, ou texturas. Ou tudo junto. Ou a uma cor particular, que é insuportável a ponto de dar náuseas (autistas gostam de comparar suas hipersensibilidades, é divertido e informativo!). Uns são tão avessos a interações sociais que a mera ideia já lhes dá um ataque de ansiedade, enquanto outros gostam da oportunidade de “estudar” pessoas normais, desde que não precisem participar (eu sou uma, tem sempre algo que eu posso aprender sobre como os outros funcionam). Como a ansiedade crônica se manifesta (dor? Enjôo? Pensamentos catastróficos? Checagem constante?) e o que dispara ataques de ansiedade é uma questão pessoal, mas a ansiedade crônica está sempre lá.

O mais importante, talvez, é que autismo não é sinônimo de déficit intelectual (nem de genialidade!). Ainda não há evidências suficientes para definir se deficiências intelectuais são uma expressão de autismo extremo ou uma comorbidade (eu suspeito da segunda), assim como existem pessoas com problemas de pele e de coração.

O que é, então, o “problema” do autismo? O mesmo de ser canhoto, eu diria. O mundo é feito para os normais, e destros. Dá um certo trabalho a gente funcionar no mundo dos outros, mas a gente aprende.

Originalmente publicado em fevereiro de 2023 na Folha de São Paulo

Mais posts

en_USEnglish