Suzana Herculano-Houzel

As vantagens de lamber suas crias

Coluna_2023_08_10

Que receber carinho é bom, todo mundo sabe. Mas nos últimos anos a neurociência descobriu por que: o cérebro tem um sistema especializado em detectar carícias – toques que deslizam suavemente sobre a pele – e informar sua ocorrência tanto a regiões que cuidam da sensação de bem-estar do corpo, quanto a outras que então inibem respostas variadas de estresse.

Claro que um sistema de sensibilidade a carinhos tem seus atrativos para os adultos, mas é nos recém-nascidos que sua importância se faz mais evidente: ele funciona como um poderoso detector-de-mãe. Depois de nove meses no aconchego do ventre, com casa, comida e calor, o carinho freqüente é a melhor indicação de que há alguém por perto para alimentar, aquecer e proteger o bebê – e esse alguém geralmente é a mãe.

Não receber carinho, portanto, é sinal de não ter mãe por perto – e a falta de ativação dos detectores-de-mãe dispara o alarme com uma resposta generalizada de estresse. Com os hormônios de estresse, corpo e cérebro saem do modo “desenvolvimento”, entram no modo “sobrevivência”, armazenando reservas, e dele só saem quando o cérebro detectar carinhos que indiquem que alguém começou a se ocupar do bebê. Por isso bebês prematuros deixados sozinhos em incubadeiras, com cuidados médicos, alimento, oxigênio e calor mas separados da mãe, não crescem, têm vários problemas de saúde, e demoram a receber alta. Felizmente, não é nada que carinhos não resolvam.

Mas os benefícios do carinho vão além de permitir o desenvolvimento tranqüilo do bebê. Um grupo da Universidade McGill, no Canadá, vem mostrando nos últimos dez anos que ratas devidamente lambidas por suas mães durante a primeira semana de vida tornam-se adultas mais tranqüilas e menos ansiosas do que ratas criadas por mães pouco carinhosas; têm respostas hormonais e comportamentais de estresse mais saudáveis; e tornam-se por sua vez mães carinhosas com a própria prole. Experimentos com mães-ratas adotivas mostraram que o determinante é o comportamento da mãe, biológica ou não: carinho gera carinho.

É um círculo vicioso altamente desejável, onde carinhos se auto-propagam. Seja bem-tratado e acariciado na infância e, além de gozar de todos os benefícios de uma resposta mais saudável ao estresse quando adulto, você acariciará seus filhos também, oferecendo-lhes os mesmos benefícios. Acaricie seus filhos, portanto, e você já estará cuidando do bem-estar dos seus netos!

Publicado originalmente na Folha de São Paulo em 16 de junho de 2006. 

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