Suzana Herculano-Houzel

E o melhor remédio para a memória é...

fb7b9b0b-2471-4903-a425-630f241cfbf8

Mais livros, mais internet, mais jornais, mais informação – e parece que a memória dá conta de cada vez menos. O que fazer para lembrar mais e esquecer menos? Como ter mais sinapses no cérebro, aquelas conexões entre os neurônios, base para a memória? Existe algum remédio para a memória?  

Todas essas perguntas são perfeitamente naturais – e têm respostas inusitadas. Para começar: você não quer ter mais sinapses no cérebro, e sim boas sinapses. Manter as sinapses certas é uma combinação de aprendizado e experiência constante, e a eliminação do excesso de sinapses dos primeiros anos de vida faz parte do desenvolvimento normal do cérebro. Quando ela falha, o número excessivo de sinapses é associado a retardo mental.

Memória demais também é um problema. Lembro disso toda vez que chego no fim da tarde ao estacionamento, onde cerca de cem carros trocam de vaga todos os dias, e fico feliz por minha memória não ser perfeita. Graças à seletividade da memória, que armazena apenas algumas informações e apaga as outras, eu não procuro meu carro hoje na vaga de ontem. Não sei de cor uma lista de números de telefone hoje inúteis dos quais um dia precisei, nem me atrapalho hoje com a lembrança dos trunfos das partidas de cartas de ontem. Esquecer é parte integral do bom funcionamento da memória, assim como nem chegar a registrar a maior parte do que acontece ao nosso redor também é fundamental. Só não ficamos constantemente assoberbados com tanta informação sensorial – e nem é preciso internet para isso – graças ao filtro poderoso da atenção, que concentra todo o poder operacional do cérebro sobre uma coisa só a cada momento.

Por outro lado, claro que é importante encontrar a informação de que você precisa, e de preferência quando você precisa, nos seus registros cerebrais. Há rios de dinheiro investidos em procurar drogas que facilitem a memória mas, ao menos até agora, todas as candidatas têm efeitos colaterais indesejáveis, e nada funciona muito melhor do que a dobradinha café & nicotina – que obviamente tem seus problemas.

Mesmo com todos os avanços da neurociência, ou na verdade graças a eles, a melhor maneira de poupar seu estômago, coração e pulmões e ter uma boa memória ainda é... usar a memória. Diferente de um computador ou qualquer disco rígido, nosso cérebro reescreve sua história e suas memórias a cada vez que elas são acessadas. E – o que é mais importante – quanto mais é usado, melhor ele fica.

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em outubro de 2006.

Mais posts

É Alzheimer ou não é?

Eu não sei quando parar

Abrindo a mente

Ajuda-te a ti mesmo

en_USEnglish