Suzana Herculano-Houzel

Coluna_304

Reuniões científicas costumam ser oportunidades para pesquisadores trocar figurinhas e apresentar uns aos outros o que acabaram de descobrir ou começaram a estudar mas ainda não se tornou público.

Por isso uma reunião recente sobre a doença de Alzheimer foi tão extraordinária. Duas instituições privadas, a Alzheimer’s Association internacional e a Croucher Foundation de Hong Kong, reuniram cerca de 30 pesquisadores renomados, especialistas na doença, para passar três dias naquela cidade-estado, fechados em um auditório – de onde saíram somente para refeições (deliciosas, por sinal) – não para apresentar suas descobertas, e sim para avaliar o estado da questão e tentar chegar a um consenso sobre o que é, de fato, doença de Alzheimer, e o que se sabe sobre suas causas.

O problema é duplo. Por um lado, bilhões já foram investidos em pesquisa e medicamentos – mas até agora, não existe tratamento eficaz, muito menos recuperação e cura. Por outro, e talvez uma das causas do primeiro problema: o que médicos e pesquisadores chamam de “doença de Alzheimer” costumava ser algo muito preciso (perda de memória e demência precoces, com emaranhados de proteína tau encontradas no cérebro após a morte), mas nas últimas décadas passou a abraçar o que outros ainda chamam de demência senil e também formas não-hereditárias da doença, tanto precoces ou tardias. O exame clínico não deveria bastar para o diagnóstico, mas na prática muitas vezes é tudo o que se faz.

Resultado: o nome que designava uma doença específica em pessoas de meia-idade, que de fato parece ter diagnóstico claro (embora ainda não exatamente mecanismo definido), virou um saco de gatos. Alguns pesquisadores ainda tem o cuidado de definir a que se referem; mas outros, em parte no afã de terem seus esforços abraçados pelo farto financiamento para estudar a doença, contribuíram para turvar o diagnóstico a ponto de tê-lo deixado quase inútil.

Inútil e, francamente, preocupante, tanto para a ciência (que dilui esforços misturando alhos e bugalhos) quanto para as famílias acometidas. Receber um diagnóstico de doença de Alzheimer é devastador, e somente deveria acontecer com ampla certeza. A diferença é que nem toda perda de memória é sinal de Alzheimer – no sentido original, de perda rápida, extrema e precoce de memória e cognição. Estresse, pancadas, AVCs, problemas vasculares e metabólicos e tantos outros fatores podem levar a perdas cognitivas debilitantes, sim – mas não catastróficas, como é a doença descrita originalmente pelo Dr. Alzheimer. Quando o diagnóstico vem com uma sentença, todo cuidado é pouco.

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em abril de 2018.

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