Suzana Herculano-Houzel

Comportamento é qualquer ação observável

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Todo comportamento tem um agente, que não precisa nem estar vivo nem ter cérebro

Comportamento não requer sistema nervoso - um conjunto de órgãos e tecidos feitos de células excitáveis que transmitem sinais rapidamente pelo corpo. Se o comportamento for definido simplesmente como ações observáveis em um determinado contexto, então as plantas têm comportamentos, como se orientar em relação à luz do sol; organismos unicelulares, como as bactérias, têm comportamentos, como se mover em direção a alimentos e para longe de toxinas. Até mesmo objetos inanimados, como ventiladores giratórios, cães robôs dançantes ou a lua e as marés, têm comportamento: suas ações de girar para lá e para cá, dançar, orbitar a Terra ou encher e minguar.

Quem quer que esteja realizando uma ação, vivo ou não, é o agente do comportamento. E se a vida não é necessária para que haja comportamento, então um sistema nervoso não pode ser necessário - e comportamento não pode ser definido como "aquilo que o sistema nervoso faz". Aceitar que comportamentos podem ocorrer sem um sistema nervoso fornece uma base sólida para entender o que muda no comportamento animal uma vez que eles têm um sistema nervoso.

Em vez de adotar uma definição circular de comportamento como "aquilo que o sistema nervoso faz", é muito mais útil trabalhar com uma definição mais ampla e abrangente de comportamento e, em seguida, examinar qual é a contribuição do sistema nervoso para isso. Esta autora considera o comportamento como qualquer ação observável de um agente. A palavra-chave aqui é ação, em vez de apenas mudança ou diferença, como em um jogo dos 7 erros. O conceito de comportamento pressupõe um agente, ou "proprietário", da ação que está sendo observada: o agente do comportamento.

Descrevemos várias mudanças observáveis no mundo como ações de um agente: o sol se põe, a lua nasce, o cachorro persegue o esquilo, nós nos apaixonamos. Não é coincidência que as ações pressuponham agentes, a entidade que está agindo, pois é assim que o cérebro humano, que criou a linguagem em uso, funciona. Dado que o cérebro está sempre gerando ações, fazendo previsões sobre as mudanças no corpo e no mundo que serão as consequências dessas ações, verificando se os resultados das ações correspondem às expectativas, identificando a si mesmo (ou não) como a fonte da mudança - e de novo, e de novo -, então, para esse cérebro, qualquer mudança no estado do mundo "deve" logicamente também ser atribuída a um agente: se não nós mesmos, então outra coisa cuja mudança do seu estado poderia ter causado a mudança de estado observada.

Por exemplo: afirmar que "o sol se põe" ou "a lua nasce" estabelece o sol e a lua como agentes dos comportamentos de se pôr e nascer. Note que isso não implica nem exige que o sol ou a lua estejam conscientes de alguma forma, muito menos que saibam o que estão fazendo. Afirmar que o sol e a lua se comportam de determinadas maneiras não requer nem mesmo um propósito, muito menos uma finalidade. Essa afirmação simplesmente nos fornece a descrição de uma mudança - o comportamento de uma determinada entidade - cujas características e padrões podemos agora examinar e cuja causa no agente podemos até buscar, se quisermos.

Uma missão fundamental da neurociência é entender o que faz com que os animais se comportem como se comportam. Como os animais são definidos por terem um sistema nervoso, e há muitos comportamentos que somente os animais, entre as criaturas vivas, realizam - andar, voar, comer isto mas não aquilo ou escolher de quem ficar perto -, então é uma expectativa razoável que grande parte do comportamento animal deva decorrer de como seus sistemas nervosos são construídos e operam. Pode parecer contraintuitivo o fato de que a melhor maneira de entender como isso acontece é primeiro avaliar como os comportamentos podem ocorrer sem um sistema nervoso, mas, uma vez que isso seja feito, fica muito mais fácil examinar o que é a verdadeira contribuição dos sistemas nervosos para o comportamento.

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