Suzana Herculano-Houzel

Chimpanzés também tem doença de Alzheimer – e agora?

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Doença de Alzheimer não é minha praia, mas agora vivemos tanto que é inevitável que o assunto acabe sendo mencionado em outros contextos. Nos círculos que estudam a diversidade do sistema nervoso e como o cérebro humano se compara aos demais (ou se distingue deles), uma afirmação era particularmente comum em palestras: “somente humanos sofrem com doença de Alzheimer”.

Da plateia, eu revirava os olhos e resmungava mentalmente. É sabido que o principal fator de risco para a doença de Alzheimer é idade avançada. Se os sinais começam em média lá pelos 65 anos de idade, por que alguém esperaria que ratos e camundongos, que mal chegam aos dois anos de vida, sofressem dessa doença? Mesmo macacos, evolutivamente muito mais próximos de nós e portanto melhores candidatos a padecer dos mesmos males, vivem apenas uns 20 anos.

Há tempos venho insistindo que nossa espécie não tem nada de especial para além de ter inventado o cozimento e assim pulado o muro da limitação energética que se aplica a todas as demais, que só comem cru. Por isso, quando um colega me perguntava sobre a exclusividade humana no quesito Alzheimer, minha resposta era “isso é mesmo fato? Alguém já examinou se elefantes ou baleias, que vivem ao menos tanto quando humanos idosos, realmente nunca tem sinais de Alzheimer?”. Senti-me então secretamente vingada quando uma colega recentemente demonstrou que, também nesse quesito, não estamos sozinhos.

Mary Ann Raghanti, na Universidade Estadual Kent, em Ohio, nos EUA, que há muito vem fazendo estudos comparados do cérebro de primatas, conseguiu amostras de tecido cerebral de 20 chimpanzés que, criados em zoológicos ou outras instituições, viveram muito mais do que a média de 33 anos registrada na natureza. Quinze animais morreram naturalmente com mais de 40 anos, e dois com cerca de 60 anos.

Pois bem: por critérios diferentes, vários dos 20 animais tinham os sinais característicos da doença de Alzheimer, como placas de beta-amilóide e emaranhados de proteína Tau. E mais: ambos os animais mais idosos tinham sinais de doença avançada. Se também apresentavam os distúrbios de memória e a demência característicos é bem mais difícil determinar, pois seriam necessários testes cognitivos com animais jovens e idosos.

Está aí um problema interessante para os que se opõem à pesquisa com animais. Camundongos e ratos dificilmente trarão uma solução para a doença de Alzheimer; uma nova gerontologia de primatas teria muito mais chance de dar resultados – mas isso exige estudar macacos e chimpanzés. E aí, vale a pena?

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em dezembro de 2017

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