Suzana Herculano-Houzel

Brasileiro descobre conexão direta entre intestino e cérebro

Coluna_316

Sabe aquela estória de que o papel dos nervos do estômago durante uma refeição é só informar ao cérebro sobre a chegada de comida, e saciar a fome? Acabou de ser enterrada por um neurocientista brasileiro, um que foi personagem desta coluna recentemente com um trabalho lindo, danado de difícil de fazer, sobre uma região do cérebro que, quando estimulada por laser, faz camundongos atacarem brinquedos de corda. Coisa de ficção científica, financiada pelo governo dos EUA, que mostrou que há na amígdala (do cérebro) uma parte que dispara ataques violentos letais, fundamentais a quem precisa caçar para sobreviver.

Ivan de Araujo está de volta com outro trabalho igualmente complicado e elegantérrimo, desta vez atacando a conexão intestino-cérebro, aquela que tem dado o que falar desde que virou moda estudar o microbioma: as bactérias “boas” que habitam nossas entranhas. Que as bichinhas mudam nosso metabolismo e afetam até nosso estado de espírito, isso já é ponto pacífico. A questão que permanece é: como?

Usando corantes ou vírus modificados, injetados ora no estômago, ora no gânglio nodoso do nervo vago, ora em partes diferentes do cérebro de camundongos com precisão submilimétrica para tornar as células infectadas sensíveis a um laser azul, a equipe de Ivan pôde controlar quais células ativavam sob encomenda, e traçar suas conexões entre corpo e cérebro. Os pedaços, encaixados como quebra-cabeças bem montado, revelaram o todo: o nervo vago monitora estômago e intestino e, pelo núcleo do trato solitário (o nome até lembra poesia), faz a substância negra liberar dopamina diretamente no estriado.

Se os nomes das estruturas não soam familiares, o resultado certamente é conhecido: prazer. Que saciedade, que nada. A estimulação do estômago dá é prazer, mesmo, direto no cérebro.

Formado em filosofia e matemática pela Universidade de Brasilia, pós-graduado na Escócia com passagem pela Universidade Duke, nos EUA, Ivan de Araujo há tempos já fazia bonito nos EUA, na Universidade Yale, onde começou a estudar os circuitos entre cérebro e corpo. Fez tão bonito que outras universidades quiseram a honra de abrigar sua pesquisa, e agora sua nova casa é a Escola de Medicina Monte Sinai, em Nova Iorque, onde ele é Professor Titular. Porque é assim que acontece nos países que levam pesquisa a sério: cientistas são disputados com ofertas competitivas, como jogadores de futebol por clubes de desportos, e seus colegas vibram com eles quando seu trabalho é reconhecido.

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em setembro de 2018.

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