Suzana Herculano-Houzel

Coluna_2023_09_21

O neurocientista Robert Sapolsky é um dos maiores especialistas em estresse da atualidade e, como tal, é muitas vezes solicitado a dar entrevistas. Em uma delas, a repórter perguntou qual era sua receita particular para lidar com o estresse crônico. A resposta: “Eu amo o meu trabalho; faço exercício regularmente e não dispenso minhas três partidas de futebol por semana; e tenho um casamento maravilhoso há quase 20 anos”.

A repórter ficou furiosa. A matéria era para uma revista direcionada a mulheres executivas, solteiras e poderosas. “O senhor percebe que essas mulheres já têm em média mais de 35 anos, vivem para o trabalho e talvez nunca se casem? Como posso dizer a elas que sofreriam menos as conseqüências do estresse crônico se estivessem casadas?” 

E no entanto é fato: em média, pessoas casadas adoecem menos e vivem mais do que as solitárias. Eventos devastadores, como a morte de um filho, não aumentam a mortalidade nos anos seguintes entre pais casados, mas aumentam entre aqueles já divorciados ou viúvos na época da perda, que não contavam com o apoio de um cônjuge. Entre pacientes com doenças cardíacas graves, a taxa de mortalidade é três vezes maior entre aqueles que não contam com o apoio social de amigos íntimos e esposas.

Relacionamentos afetam nossa vida de várias formas, e uma delas, que tem impacto diretamente sobre o bem-estar, é a regulação da resposta ao estresse. Pessoas socialmente isoladas têm o sistema de resposta ao estresse exageradamente ativo, o que provoca hipertensão, leva à formação de placas nas artérias e aumenta a chance de doenças cardíacas. No final das contas, viver sozinho pode ter um impacto negativo sobre a longevidade tão grande quanto fumar, ser hipertenso, obeso ou sedentário – tudo, aliás, devido ao estresse crônico.

Claro que isso não significa que o casamento seja a solução de todos os problemas. Ele pode, sim, ser um fator de proteção – mas só se for com a pessoa certa. Não é preciso ser cientista para saber que um mau casamento faz mal à saúde, com conseqüências negativas para corpo e mente.

E depois, ter um(a) companheiro(a) estável é ótimo, mas não é tudo. Amigos íntimos – bons amigos, daqueles que sabem da nossa vida, nos apóiam em qualquer circunstância e aparecem ao primeiro pedido de ajuda – reduzem nossa resposta ao estresse e fazem um bem danado à saúde. Mas disso você já sabia...

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em setembro de 2006.

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