Suzana Herculano-Houzel

Coluna_037

Toda vez que se testa um novo medicamento, é preciso determinar se a substância é inerentemente ativa, capaz de agir sobre o corpo da maneira desejada – como antiinflamatório, antidepressivo, ou antihistamínico, por exemplo. De praxe, os efeitos da substância são testados inicialmente sobre células cultivadas em laboratório, e comparados aos efeitos de outras sabidamente inócuas, como uma solução salina ou farinha. Sobre células em cultura, o efeito dessas substâncias-controle é de fato nenhum – um ótimo referencial para saber se a droga em teste funciona.

No entanto, quando se passa à fase seguinte e o teste é repetido com pessoas, surpresa: vezes demais, pílulas da substância inerte – o placebo – surtem o efeito desejado. Esse é o efeito placebo: uma melhora semelhante à proporcionada por terapias, mas que ocorre na ausência de uma intervenção intrinsicamente terapêutica. Se o medicamento não é real, o efeito também não deveria ser. ausência de uma intervenção intrinsecamente terapêutica. Se o medicamento não é real, o efeito também não deveria ser.

E assim se criticava o efeito placebo como mera sugestão, uma falsa crença do paciente, que se acreditaria melhor sem que houvesse melhorado de fato – e, portanto, um empecilho à medicina, pois fazia que os medicamentos parecessem ineficazes. Afinal, como acreditar em um tratamento quando substâncias inertes também surtem efeito?

Foi no final dos anos 1990 que o efeito placebo deixou de ser considerado empecilho ou mera sugestão e ganhou status de tratamento por si só, digno de pesquisa científica sobre seus mecanismos, pois a melhora que ele proporciona é real – embora seja fruto de sugestão, de fato. O efeito placebo depende da simulação psicossocial de uma terapia, o que surte efeitos biológicos sobre o cérebro: na expectativa de se sentir melhor, ele vai provocando desde já alterações em seus sistemas internos de analgesia, de motivação e de controle da resposta ao estresse.

Por isso a farinha na comida de todos os dias não tem qualquer efeito terapêutico, mas uma pilulazinha tomada como “remédio” pode eliminar a dor, elevar a função imunitária e até mexer nos seus hormônios. Aumentando a liberação de dopamina e de substâncias semelhantes ao ópio produzidas por ele mesmo, o cérebro aplaca suas dores, aumenta sua motivação e melhora a sensação de bem-estar como um todo. Mesmo que não cure tumores, infecções graves e tantas outras doenças fora de sua alçada, o efeito placebo é a maneira do seu cérebro ajudar a si mesmo – inclusive a ir buscar mais ajuda.

Publicado originalmente na Folha de São Paulo em outubro de 2007

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