Suzana Herculano-Houzel

Coluna_2023_08_29

A felicidade começa no cérebro. Faça algo bem feito, receba um agrado ou um carinho ou ache graça em uma piada, e seu sistema de recompensa se encarrega de fazer com que as regiões do cérebro que cuidam de movimentos automáticos – aqueles que fazemos sem precisar pensar – estampem um belo sorriso em seu rosto. Se ele é genuíno, essas regiões do cérebro tratam de elevar os cantos da boca, relaxar as sobrancelhas e, o mais importante, apertar levemente as pálpebras. É acionado também o córtex órbito-frontal (OFC), parte do cérebro que registra quando algo de bom acontece – como, por exemplo, a causa do sorriso.

O sorriso forçado, aquele que damos tantas vezes para a câmera, é diferente. Ele parte de regiões do cérebro que comandam movimentos voluntários, e não causa ativação do OFC. Portanto, não diz ao resto do cérebro que algo de particularmente bom aconteceu. Ou seja: você pode até sorrir por fora, mas seu cérebro sabe que você não está sorrindo por dentro.

O incrível é que estampar um sorriso no rosto pode bastar para que comecemos a nos sentir bem. O truque funciona mesmo se você instruir um ator a montar um sorriso, músculo a músculo. Quanto mais os atores aprendem a dominar o músculo que circunda as pálpebras, adotando uma expressão de felicidade genuína, mais seu corpo começa a se preparar para a felicidade, proporcionando-lhes um bem-estar que eles não sabem explicar. A neurociência, contudo, explica: um trabalho recente mostrou que o sorriso genuíno já basta para ativar o córtex da ínsula, região do cérebro que nos dá sensações subjetivas como a do bem-estar.

Ver alguém sorrir também funciona. Um sorriso no rosto de quem fala com você aciona as mesmas áreas do cérebro responsáveis pelo seu próprio sorriso, inclusive a ínsula e o OFC. É como se ver alguém sorrindo bastasse para você se sentir sorrindo por dentro também. Uma vez que seu cérebro repete por dentro o sorriso que ele vê por fora, o bem-estar do outro é contagiante. Felicidade gera felicidade: ela passa de um cérebro para o próximo através do sorriso.

E, se tudo isso ainda não bastar para você começar a sorrir agora mesmo, eis uma razão a mais: o OFC, que é acionado automaticamente quando vemos uma pessoa bonita (feia não serve!), fica ainda mais ativo quando essa pessoa sorri. O sorriso é, portanto, o tratamento de beleza mais rápido, barato e democrático que a natureza – e a neurociência – já inventou...

Originalmente publicado na Folha de São Paulo em agosto de 2006.th, 2006.

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