Suzana Herculano-Houzel

Você usa apenas 10% do cérebro?

Coluna_2023_08_01

Eu já sabia que a frase era conhecida, mas resolvi perguntar. Em uma pesquisa chamada “Você Conhece Seu Cérebro?”, consultei pouco mais de dois mil leigos sobre vários assuntos. Entre outras coisas, eles concordavam que “utilizamos normalmente apenas 10% do cérebro”? A metade assentiu. Repeti então a pergunta a algumas dezenas de neurocientistas, e estes prontamente discordaram. O veredicto? Essa estória de usar 10% do cérebro é um mito.

Um mito de grande apelo, é verdade. Quem só usasse 10% do cérebro teria 90% de reserva e, se aprendesse a usá-los, poderia ficar 10 vezes mais inteligente, lembrar de 10 vezes mais informações, fazer contas 10 vezes mais rápido, falar 10 vezes mais línguas. Você pode, de fato, ficar mais esperto, lembrar de mais coisas, ser mais rápido, e falar mais línguas – mas não terá sido por passar a usar mais de 10% do cérebro.

Até onde se sabe, não há regiões silenciosas ou de “reserva” no cérebro, e certamente o cérebro não é 90% reserva. Cada pedaço tem sua função específica e, ainda que ela seja desconhecida aqui e ali, imagens do cérebro em funcionamento mostram que todo ele trabalha e consome energia, o tempo todo – inclusive enquanto você dorme. Certo, ora umas regiões trabalham mais, ora menos, conforme a tarefa em questão. Mas todas estão ativas, a postos, e todas têm seu papel. Por isso, você não precisa perder 90% do cérebro para sofrer conseqüências graves. Perca o equivalente a um dedal no lugar certo e, por exemplo, você pode ser privado da fala, ou da visão.

Também é engano acreditar que você só use 10% da sua “capacidade cerebral”. Basta lembrar que, para calcular o uso nos tais 10%, seria preciso conhecer o limite, os 100% dessa capacidade. Quem seria essa referência que usa 100% da sua “capacidade cerebral”? Contra as aparências, não seria um gênio, mas um infeliz que não poderia aprender mais nada.

Na verdade, leitor, você usa 100% do seu cérebro. Usa tanto o hemisfério direito quanto o esquerdo, usa todas as estruturas, tem todos os neurônios capazes e funcionais. E ainda assim pode se esforçar e aprender coisas novas todos os dias, falar novas línguas, tornar-se pintor, esgrimista ou costureiro. A razão? O que faz a diferença não é quanto do cérebro você usa, e sim como você o usa: o que exige do seu cérebro, como o trata, que informações lhe oferece, como as explora e combina. Não se preocupe, portanto, em usar mais do seu cérebro, pois você já usa 100% dele. Preocupe-se, isso sim, em usá-lo melhor!

Publicado originalmente na Folha de São Paulo em 1º de maio de 2006. 

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